“HAY QUE LEER”

“HAY QUE LEER”

Qualquer que seja a ideologia e o regime que regem os países em desenvolvimento,  na sua luta desesperada para “emergir” e ocupar um lugar de respeito no conceito das nações, a Educação e a Cultura, não poderia deixar de ser reconhecidas como alavanca principal para se alcançar o progresso.

         Na primeira oportunidade que tive de visitar Cuba, representando os editores brasileiros na Feira Internacional do Livro de Havana, me deparei com um enorme painel na entrada da feira com a insinuante frase.

.“Nosotros no pedimos que crean, mas que lean”.

         Mesmo admitindo na frase uma forte conotação anti-religiosa, reflexo certamente do dogma marxista que identifica na religião o ópio do povo, pode-se emprestar a ela, qualquer que tenha sido a intenção inicial, um significado mais amplo e mais universal, que convida o povo a ler, antes de abraçar uma ideia, uma profissão, uma ideologia e, por que não dizer, também uma crença religiosa.

         Assim, parece ser consenso identificar no solitário ato de ler o primeiro e decisivo passo para que a luz se faça em qualquer atividade, sobre qualquer assunto, mesmo que seja para melhor contestar, com o necessário conhecimento de causa e mais apurado senso crítico.

         Mas atribuir ao livro e ao hábito da leitura somente um único e importante fator no desenvolvimento da Educação e da Cultura, no sentido meramente material, é muito pouco.

        

         Com toda a ciência e a tecnologia à disposição dos meios de comunicação de massa e de informação, que a cada dia mais se sofistica, o jovem desde tenra idade, que já nasceu “teveguiado”,  é submetido a um verdadeiro e diuturno bombardeio de informações e de insinuantes apelos, que o induzem à competição desenfreada, e à crença de que o melhor é o mais esperto e o que chega primeiro, qualquer que seja o meio empregado para vencer.

         Na sociedade de consumo, verdadeiro campo de batalha para se ocupar um lugar ao sol, não existem concessões e nem se prevêem acordos.

         A competição, encarada no mal sentido, embrutece o homem, que passa a ver no seu semelhante um mero competidor a ser vencido.

         A esse propósito, Charles Chaplin, já proclamava em um trecho do “Último Discurso”: – 

Pensamos em demasia e sentimos pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido”.

         Nem de longe pensarmos em condenar a sadia competição, que gera o necessário estímulo, mola mestra que determinou e conduziu a evolução da humanidade em todos os campos de atividade.

O que não se percebe é que o ser humano é muito mais do que um intelecto a ser treinado ou uma máquina de produzir lucros. Ele tem e depende, para o seu pleno e harmonioso funcionamento, aspectos muitas vezes até mais importantes, como as emoções, o psiquismo, as energias e o espírito, que também precisam ser conhecidos, treinados e respeitados.

         Mas é um equívoco pensar que a educação acadêmica é suficiente para tornar um homem mais humano do que outro. A história tem mostrado que os maiores atos de violência perpetrados contra a humanidade foram e têm sido obra de homens de reconhecida cultura acadêmica.

         Na administração pública, ou em grandes corporações, o chamado crime de “colarinho branco” é praticado certamente por profissionais de respeitável escolaridade. 

         Difícil e pretensioso determinar regras para a imprevisível condição humana, mas  parece indiscutível que, mais consciente e preparado, o jovem tem maiores probabilidades de se distanciar das drogas, dos vícios e, em consequência, de todo o tipo de violência.

Antes de se inserir na globalização que a vida moderna exige e abrir em leque seus relacionamentos, através das atuais formas de comunicação para a instrução e para o progresso o jovem deve “vacinar” seu espírito, por meio de sua interiorização e do despertar de seus sentimentos, mantendo-se em estado de alerta, para impedir que se torne excessivamente cerebral, em detrimento dos seus valores humanos.

         Assim, quase tanto quanto o ato de orar, o isolamento e a concentração que a leitura requer, e o envolvimento com os diferentes perfis dos mais variados personagens, em diversas situações e paisagens, provoca no leitor reflexão e senso crítico, além de permitir traçar paralelos com o seu cotidiano.

         Romance, poesia, biografia, história, filosofia, relato de viagens, crônicas, etc., são textos que a priore parecem não oferecer maiores aptidões para o desempenho de uma profissão, porém o propósito do autoconhecimento  é o primeiro passo para a conquista do desenvolvimento interior, como já pregava Santo Agostinho, e a leitura por prazer é a melhor forma de investir na sua evolução, tornando-se mais sensível e tolerante, com condições de melhor desempenhar sua profissão, porque em qualquer atividade, se destacará quem melhor compreender seu semelhante.

         O bom senso e a experiência também nos ensinam a temer o homem de um livro só, certamente a razão pela qual o poeta aconselhava muitos livros:

“Livros, livros à mão cheia

E manda o povo pensar”…

Cosmo Juvela

igrejafamiliapar

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